Vaccari's Code

Atualização: Bun em Rust

7/27/2026

A corrida para integrar Inteligência Artificial em tudo que fazemos tem gerado algumas narrativas impressionantes. Uma das mais comentadas recentemente foi a suposta reescrita do Bun – um runtime JavaScript e toolkit rápido – para Rust, com a ajuda de ferramentas de IA da Anthropic. A promessa era de velocidade e eficiência sem precedentes, um verdadeiro divisor de águas. Mas, como em tudo que envolve grandes promessas e avaliações de mercado inflacionadas, é crucial manter uma boa dose de ceticismo.

A Promessa Deslumbrante e os Custos Ocultos

Em 8 de julho de 2026, Jarred Summner, criador do Bun, anunciou a "Reescrita do Bun em Rust". Na época, a notícia foi veiculada como prova do poder da IA, especificamente da Anthropic, para acelerar o trabalho de maintainers de código aberto. Jarred afirmou que a reescrita foi concluída em apenas 11 dias (entre 3 e 14 de maio de 2026), a um custo de US$ 165.000 em chamadas de API da Anthropic, e então integrada ao main branch. Isso equivale a US$ 15.000 por dia, um valor que está muito além dos recursos de muitos projetos open source.

É difícil não traçar um paralelo entre a aquisição do Bun pela Anthropic e a escolha de reescrevê-lo com uma ferramenta da própria Anthropic. A narrativa de que a IA pode fazer o trabalho de desenvolvedores, mais rápido e mais barato, é sedutora e apoia avaliações de mercado gigantescas. Contudo, essa conta inicial de US$ 165.000 pareceu, desde o início, "cautelosamente" incompleta. Ela não incluía, por exemplo, os custos operacionais do cluster de CI/CD (Integração Contínua/Entrega Contínua) da organização, que aparentemente tem funcionado sem parar desde a "conclusão" da reescrita. E é aqui que os "sinais de alerta" começam a aparecer.

Mergulhando no Código: O Que os Dados Revelam

Decidi investigar a fundo as alegações. Em 27 de julho de 2026, seis semanas após a suposta fusão da reescrita para o main, ainda não havia uma nova release tag (marcação de versão). A última tag de lançamento do Bun foi em 12 de maio de 2026, o que significa que já se passaram 11 semanas sem uma nova versão – um período incomumente longo para o projeto.

A análise mais profunda revelou um cenário ainda mais complexo. Em 9 de julho, o número de Pull Requests (PRs) abertos por robobun (um proxy para PRs gerados pelo Claude, a IA da Anthropic) era de 1277. Em 27 de julho, esse número disparou para 2475 PRs abertos. Para contextualizar, um PR é uma solicitação para mesclar alterações de código, e cada um precisa passar por revisões e verificações de CI/CD. O tempo para mesclar um PR no main com as verificações do Buildkite (o sistema de CI/CD) leva cerca de 40 minutos, podendo chegar a uma hora e meia. Se quiséssemos mesclar todos os PRs abertos pelo Claude nesse ritmo, seriam necessários 86 dias de execução contínua da pipeline.

É evidente que o custo da reescrita vai muito além dos US$ 165.000 em chamadas de API. A análise dos dados mostra um pico no uso do Claude no início da reescrita, mas agora há um envolvimento crescente de funcionários da Anthropic e do robobun no código Rust. Se assumirmos um custo diário de US$ 10.000 desde então, a reescrita já estaria se aproximando de US$ 800.000. Isso sem contar os custos de infraestrutura e o tempo dos engenheiros envolvidos. A máquina continua funcionando, os funcionários da Anthropic estão diretamente envolvidos, e a reescrita está longe de ser "concluída" pelo custo inicial declarado.

O Hype da IA e a Lição para Builders

A situação do Bun é um microcosmo do atual ciclo de hype da IA. Se em 2015 eu precisava convencer a gerência de que modelos de machine learning superavam humanos em tarefas quantitativas, hoje a situação se inverteu: a crença na IA é tão forte que ela é vista como a solução para tudo. E muitas avaliações de empresas dependem da narrativa de que a IA vai "comer o mundo".

No entanto, a realidade é mais matizada. Outros projetos ambiciosos movidos a IA, como o compilador C da Anthropic e o navegador web FastRender da Cursor, não tiveram commits por meses, indicando que o entusiasmo inicial pode não ter se traduzido em sustentabilidade a longo prazo.

Para nós, builders e tomadores de decisão em tecnologia, a lição é clara: precisamos ser "canny" – astutos e cautelosos – ao avaliar afirmações, especialmente aquelas que sustentam grandes avaliações de mercado. A IA é uma ferramenta poderosa, mas não é uma bala de prata que elimina complexidades ou custos da noite para o dia. A capacidade de discernir entre o marketing e a realidade técnica, de analisar dados e de questionar narrativas, é o que nos permite construir soluções robustas e sustentáveis. A pergunta que realmente importa para qualquer "coisa de negócio" é: "Valeu o dinheiro? E as empresas valem a avaliação que possuem?". A resposta, muitas vezes, é mais complexa do que o hype sugere.

Fontes


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